O caminho que a gente só enxerga quando se perde
- Andréa Menezes

- 7 de jul.
- 2 min de leitura
Sabe quando você está num trajeto que conhece de cor e salteado? Vai no piloto automático. O olhar meio que desliga, os pensamentos viajam, e você chega sem lembrar direito do percurso. Caminhos conhecidos não pedem atenção — eles já estão mapeados na nossa cabeça, internalizado, quase invisível.
Agora, lembra da última vez que se sentiu perdido? O GPS não ajuda, a rua não parece familiar, nada faz sentido! E é bem ai nesse momento que seus sentidos se ligam. Você começa a prestar atenção em cada placa, cada referência, cada detalhe do caminho que antes passaria despercebido. Estar perdido aguça o olhar.
Um paciente me trouxe essa imagem numa sessão esses dias, e ela ficou ecoando na minha cabeça. Ele falava dessa sensação de que tudo está sempre mudando — que quando finalmente chega num lugar, aquilo já não é mais, já virou outra coisa. Que o tempo nunca dá pra fazer tudo o que a gente quer e que sempre tem algo novo pra ser resolvido. E, em meio a tudo isso, ele acabava "enchendo" o próprio tempo até transbordar.
Mas aí veio a parte bonita da conversa. Ele disse que tem se permitido estar um pouco perdido, as vezes. E que percebeu algo: quando o caminho é desconhecido, a gente presta mais atenção na trajetória. É como se o "não saber" acendesse uma luz e a gente percebesse melhor o percurso.

Isso me fez pensar em como a gente corre de sentir-se perdido. A ansiedade aperta, a vontade é de chegar logo, de encontrar uma resposta, um mapa, um destino certo. Como pode ter alguma coisa boa em estar perdido? Mas talvez estar perdido não seja um desvio — seja o estado natural de quem está vivo e em movimento. Porque, no fundo, nada fica parado. O chão se move, as estações mudam, o que fazia sentido ontem hoje já pede outra leitura.
Quando a gente aceita que não sabe exatamente onde fica a saída, algo se solta. A atenção que antes estava fixada no "chegar" se desloca pro "caminhar". E o caminho, que antes era só um meio, vira também experiência.
Não me entenda mal! Não tô dizendo pra gente se jogar no abismo sem rumo. Mas quem sabe a gente não tenta, de vez em quando, largar o mapa por alguns instantes? Sentir o chão, olhar pro lado, reparar nas curvas, sentir o vento, ver as pessoas. Porque, no fim, talvez o que importe mesmo não seja chegar rápido — seja não passar batido pela travessia.



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