Queimando o Ano Velho: Um ritual de renovação para a alma
- Andréa Menezes

- 19 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Morei um tempo na cidade de Quíto, no Equador, e logo na minha primeira comemoração de fim de ano por lá me surpreendi com a pergunta estranha: Onde você vai passar o ano velho? Ãh?!
Imagine só a cena: em vez de só focar na contagem regressiva para o novo ano, no Equador, o pessoal se prepara para dar um adeus grandioso ao velho. A grande estrela da virada é o "Año Viejo". Não é uma festa genérica, é um bonecão! E não é qualquer boneco, não.
Pensa assim: eles constroem ou compram esses bonecos em tamanho real, que podem ser superdivertidos e satíricos. Às vezes representam algum político que aprontou durante o ano, uma celebridade que foi notícia, ou até mesmo um personagem da cultura pop. É uma forma de olhar para o ano que passou, dar uma boa risada das suas bizarrices e, de quebra, fazer uma pequena crítica social ou homenagem.
O mais bacana é ver como isso une as pessoas. Não é uma comemoração solitária. É uma festa comunitária! Você vê famílias trabalhando juntas para montar o boneco, amigos rindo e comentando sobre o "testamento" engraçado que o "Año Viejo" deixou, e todo mundo compartilhando a expectativa do novo que está por vir, mas só depois de se despedir do antigo com uma boa queima. É um misto de ritual e folia, onde o desapego ganha ares de celebração.
E o que acontece com esses bonecos? Ah, a parte mais legal! À meia-noite, eles viram fogueira! As famílias se reúnem nas ruas, os vizinhos saem de suas casas, e esses "años viejos" são levados para o fogo. É um espetáculo de chamas e fumaça que não é só visual, é carregado de um significado profundo. As pessoas observam seus bonecos queimarem, e é um símbolo potente de deixar para trás o que não serve mais, de purificar, de fechar um ciclo. Alguns, mais ousados, chegam a pular as fogueiras para atrair boa sorte. Uma energia contagiante de renovação!

Mergulhar nas tradições equatorianas de fim de ano é uma experiência que me fez pensar. Aquela história de queimar o "Año Viejo" não é só um espetáculo de fogos, é um verdadeiro ritual. Imagine a cena: famílias e amigos se reúnem, criam ou compram bonecos que representam o ano que se vai – às vezes com humor, às vezes com uma crítica velada a políticos ou celebridades. E na virada, a meia-noite, todos se juntam para incinerar essas figuras numa grande fogueira. É um adeus coletivo ao passado, uma forma bem visual e intensa de simbolizar que o ciclo se fechou.
Confesso que, de início, achei um tanto quanto peculiar eles celebrarem o "Ano Velho" em vez do "Ano Novo". Como assim, comemorar o que está acabando? A gente aqui, focada em "Feliz Ano Novo", em recomeço, e eles lá, honrando o fim!
No entanto, à medida que fui pensando nisso, percebi uma sabedoria profunda nesse "estranhamento". Para realmente celebrar o novo, para dar as boas-vindas ao que está por vir com o coração aberto e a alma leve, a gente precisa, antes de tudo, "queimar o ano velho" dentro de nós.
Não dá para querer criar metas incríveis, planejar projetos inovadores e buscar um bem-estar psicológico genuíno se ainda estamos carregando as bagagens pesadas do que passou. As frustrações, os medos, os "e se..." que não se concretizaram, as dores que ainda doem, as culpas que nos prendem – tudo isso são "odres velhos", para usar a bela metáfora de Jesus. Ele já dizia que não se pode colocar vinho novo em odres velhos, porque os odres vão se romper, e o vinho se perderá.
E essa frase, vinda de um contexto tão diferente, ressoa perfeitamente com a nossa jornada de autoconhecimento e crescimento. Se queremos viver um "vinho novo", com novas experiências, novas paixões, novos aprendizados e uma mente mais saudável, precisamos de "odres novos", ou seja, um espaço interno limpo e preparado.
"Odres Velhos": Um Espelho da Nossa Inflexibilidade Interna
Para recapitular rapidamente, os odres eram recipientes de couro. O vinho novo fermentava, expandindo-se, e os odres novos e flexíveis podiam suportar essa pressão. Já os velhos, ressecados e rígidos, não tinham essa capacidade e se rompiam. Jesus usou isso para mostrar a incompatibilidade entre o novo e o obsoleto. Não se trata de uma crítica ao velho em si, mas à sua incapacidade de conter e se adaptar ao novo.
Quando trazemos isso para a nossa realidade, os "odres velhos" ganham uma profundidade enorme. Eles podem ser:
Crenças Limitantes e Paradigmas Rígidos: Sabe aquelas ideias fixas que carregamos sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre o mundo? "Eu não sou boa o suficiente", "isso nunca vai dar certo", "as coisas sempre foram assim". Elas são como odres velhos que não permitem que novas percepções e possibilidades, o "vinho novo" da esperança e da capacidade, se acomodem. Elas te impedem de enxergar soluções ou de acreditar no seu potencial.
Hábitos e Padrões Comportamentais Engessados: Rotinas que viraram armadilhas, formas automáticas de reagir a situações que já não são eficazes, procrastinação crônica, perfeccionismo paralisante. Esses são odres que, de tão acostumados, não dão espaço para a experimentação de novas abordagens ou para a flexibilidade necessária diante de imprevistos.
Identidades Rígidas e Apego ao "Eu Fui": Muitas vezes nos apegamos a uma imagem de quem fomos ou de quem "deveríamos ser". "Sempre fui assim", “pau que nasce torto não endireita mais”, etc. Mas a vida é movimento, e nós, como indivíduos, também estamos em constante evolução. Os lugares onde você vai, as pessoas com quem se relaciona, os livros que você lê... tudo isso te transforma. Se a gente não se permite redefinir, expandir a nossa identidade, esse "eu velho" pode se tornar um odre rígido demais para as novas versões de nós mesmos.
Emoções e Dores Não Processadas: Traumas, ressentimentos, mágoas passadas, medos não enfrentados. Essas experiências, se não forem olhadas e elaboradas, ficam ali, ocupando um espaço valioso, ressecando a nossa capacidade de sentir e viver plenamente. É difícil acolher a alegria genuína ou a empolgação de um novo projeto (o vinho novo) se o nosso odre interno está rachado pela dor antiga que ainda vaza.
Queimar o ano velho, então, é esse ato intencional de soltar, de desapegar. É olhar para o que nos emperrou, o que não nos serviu mais, o que nos causou dor ou estagnação, e conscientemente decidir que não queremos levar isso adiante. É reconhecer que algumas coisas precisam ser transformadas em cinzas para que a terra nova possa germinar.
Então, fica aqui uma reflexão: o que você está precisando deixar – ou queimar – para trás para começar o seu novo ano? Talvez seja aquela autocrítica excessiva, a tendência de abraçar mais tarefas do que o tempo permite, ou até mesmo um apego a velhos padrões que já não te servem. Lembre-se, o próximo ano pede metas claras, realistas e mensuráveis, sim, mas acima de tudo, pede um terreno fértil para que elas floresçam. E a melhor maneira de preparar esse terreno é, muitas vezes, libertando-nos do peso do "ano velho".
Que a gente aprenda com a sabedoria equatoriana e encare o ato de "queimar o ano velho" como um convite à leveza e à abertura para o novo que se anuncia. Afinal, só assim o vinho novo poderá ser desfrutado em toda a sua plenitude.



Me fez refletir! Preciso de verdade queimar o ano velho, para florescer no novo ano que está por vir.